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Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior

Torto Arado, romance vencedor dos prêmios Jabuti, Oceanos e Leya, é uma das mais poderosas obras da literatura brasileira contemporânea. Escrito por Itamar Vieira Júnior e publicado em 2019, o livro combina lirismo e realismo, magia e crítica social, compondo um texto ao mesmo tempo épico e íntimo.

Mais do que contar uma história sobre duas irmãs no sertão baiano, Torto Arado revela, através de sua prosa melodiosa, um profundo elemento de insubordinação social.

O romance nos leva para as profundezas do sertão da Chapada Diamantina, onde Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores rurais descendentes de escravizados, vivem em uma comunidade isolada e marcada por tradições seculares.

Logo no início da narrativa, as irmãs encontram uma velha e misteriosa faca guardada na mala sob a cama da avó. Um acidente brutal acontece e, a partir daquele momento, suas vidas se tornam inexoravelmente ligadas — a ponto de uma precisar ser a voz da outra.

Com maestria, Itamar constrói uma história de vida e morte, de combate e redenção, entrelaçando os destinos das personagens em um ambiente opressor e mágico.

A estrutura narrativa também é um ponto alto da obra. O romance é dividido em três partes, cada uma com uma narradora diferente. Inicialmente, acompanhamos os fatos pelos olhos de Belonísia; depois, pela perspectiva de Bibiana; e, na parte final, pela entidade espiritual que acompanha aquela comunidade.

O autor utiliza um recurso narrativo muito interessante: primeiro, ele apresenta a linha principal da história, conduzindo o leitor de forma fluida; posteriormente, na reta final do livro, ele volta para momentos menos detalhados e oferece novas camadas de significado.

Essa escolha proporciona uma leitura envolvente, que prende pela curiosidade, mas também deixa a sensação de completude ao aprofundar detalhes importantes no momento certo.

A linguagem adotada e a força de Torto Arado

Outro destaque é a linguagem adotada: sensível e poética, sem abrir mão da força e da contundência necessárias para denunciar a desigualdade social. Através da oralidade, de elementos da religiosidade popular — como o Jarê, culto presente na Chapada Diamantina — e de descrições vívidas da relação das personagens com a terra, o livro cria um universo autêntico e riquíssimo.

Há momentos em que a narrativa adquire traços quase mágicos, sem perder o olhar crítico sobre as duras condições enfrentadas por essas populações invisibilizadas.

Torto Arado é, ao mesmo tempo, um drama familiar e um manifesto social, denunciando o sistema de exploração ainda presente em muitas regiões do Brasil, onde comunidades quilombolas e trabalhadores rurais vivem em regime quase escravocrata, cultivando terras que jamais lhes foram concedidas como direito.

A luta pela terra, o enfrentamento ao patriarcalismo, o racismo estrutural e a resistência das mulheres se entrelaçam em uma história que ressoa como um eco das mazelas históricas do país — mas também da sua esperança por justiça.

Outro elemento de grande força no romance é o tratamento do silêncio: tanto o literal, vivido por uma das personagens, quanto o simbólico, que representa a ausência de voz de populações inteiras esquecidas pelos poderes públicos.

Mesmo sem falar, Torto Arado grita. E é essa combinação entre o mágico, o realista, o lírico e o social que o torna uma obra singular, capaz de impactar leitores de diferentes perfis.

Quem é Itamar Vieira Júnior

Itamar Vieira Júnior nasceu em Salvador (BA), em 1979. Geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, sempre esteve próximo das questões territoriais e das comunidades quilombolas, especialmente através do seu trabalho como servidor do INCRA. Essa vivência contribui para a autenticidade das vozes presentes em sua literatura.

Além de Torto Arado, o autor publicou o romance, Salvar o Fogo (2023), reafirmando sua relevância no cenário literário brasileiro e conquistando o Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2024.

Itamar Vieira Júnior tem se consolidado como uma das vozes mais potentes da literatura nacional, escrevendo sobre temas urgentes e eternos com profundidade humana e estilo primoroso.