O lado errado da sorte
Ao dobrar a esquina, correndo com um saco na mão ao som de “pega ladrão!”, foi surpreendido por uma voz rouca:
— Entre aqui!
Ele se viu em uma cafeteria cheia de gente bem-vestida, onde sua camisa rasgada pareceu queimar-lhe a pele sob os olhares de desconfiança. Na mesa do canto, um homem de óculos segurava uma caneta, diante de folhas em branco.
Fez sinal para ele ir se sentar. Tirou os óculos, esfregou os olhos cansados e, sem dizer nada, deslizou a xícara de café na direção do intruso — um gesto lento, como quem entrega uma trégua.
— Por que gritam “ladrão” atrás de você? — perguntou, estudando seus olhos assustados.
— Porque eu roubei — respondeu o homem, apertando contra o peito o saco de papel, onde um pão dormido deixava vazar migalhas.
— E por quê?
— Fome.
O tempo parou. Um buraco se abriu. A caneta escorregou dos dedos do escritor. E naquele instante, ele percebeu: não havia bandido ali, só um outro homem — um que a sorte abandonara primeiro.
Jonathan Lamim