Entre o suor e a inspiração
Você já parou pra pensar o quanto você transpira para escrever um bom texto? Quantas vezes você precisou escrever sem ter a menor chama de inspiração?
Nesse texto a transpiração veio na forma literal, pois foi escrito em um dia quente, onde janelas e portas abertas, ventilador ligado, sorvete e água gelada não foram suficientes.
O 1% de inspiração veio de uma lembrança da leitura que fiz no livro “Sobre a Escrita”, do mestre Stephen King, onde ele diz que escrever é mais sobre transpirar do que inspirar.
Eu queria muito que esse texto falasse sobre transpiração e inspiração, mas decidi escrevê-lo em um dia de inspiração quase zero. E com minha filha um pouco chorosa no quarto ao lado, foi bem complicado manter a concentração. Nem a melhor playlist de jazz ajudou. E isso foi bom.
Então, foi aí que comecei a “forçar os motores da escrita” e a transpirar ainda mais. Colocava no papel tudo o que vinha à mente, sem me importar com o fluxo, a lógica ou mesmo o sentido do que estava sendo escrito.
Sabia que o objetivo era um texto curto, de fácil leitura, mas com algumas referências. E entre uma frase e outra, eu puxava alguns livros na estante para encontrar citações que completassem o que já havia escrito.
Foram horas de escrita aleatória em busca de uma forma interessante para deixar a seguinte mensagem: para chegar a um bom texto, a transpiração é mais importante que a inspiração. E nada fazia sentido. Parecia mais do mesmo.
Fiz uma pausa de alguns minutos. Caminhei pela casa. Brinquei com minha filha.
Livros lidos enquanto escrevia o texto: Como escrever bem (William Zinsser), Como se encontrar na Escrita (Ana Holanda), Zen na arte da escrita (Ray Bradbury) e Sobre a escrita (Stephen King)
Voltei para o escritório, peguei o livro “Como escrever bem”, e ao passar algumas páginas encontrei algo que me ajudou a chegar nesse texto:
“O produto que todo escritor tem para vender não é o assunto sobre o qual escreve, mas sim quem ele, ou ela, é”. — William Zinsser
Quando acabei de ler essa frase, abri um novo arquivo e comecei a contar como foi o processo. E aqui estamos, com um texto que mostra porque escrever envolve mais transpiração do que inspiração.
Eu não era assim. Gostava de escrever textos técnicos, com passos bem detalhados, muitas referências. Mas o passar dos anos me mostrou que eu precisava ser eu mesmo, colocar mais de mim nos textos. E como de tempos em tempos nós mudamos um pouco, hoje eu não sou mais o louco dos textos técnicos.
Tenho praticado uma escrita mais humanizada. Mais afetuosa. E quando preciso ser técnico, procuro o ponto de equilíbrio.
Menos técnica, mais paixão, emoção, relação com as palavras. O que e por que se tornaram protagonistas, e identificar o como fica a critério do leitor, interpretando o texto.
Parei de imprimir o cérebro no papel e passei a deixar as batidas do coração.
Esse texto é um exemplo claro disso. E para chegar até aqui:
- escrevi muito
- li bastante
- reescrevi algumas vezes
- encontrei frases que me trouxeram um pouco de inspiração
- troquei o texto técnico pelo relato da experiência de escrita
Muita transpiração. E para não passar mal por causa dela, me hidratei. E na vida do escritor, duas coisas hidratam bem durante a rotina de escrita: água (para o corpo) e mais escrita (para mente e alma).
Como disse Stephen King, “escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.”
Escreva. Transpire. Se inspire um pouco. Se hidrate. Seja você mesmo enquanto escreve.
P.S: Texto publicado originalmente na newsletter “Sentido Inverso”.
Jonathan Lamim