A evolução da EPT no Brasil: das escolas de artífices aos Institutos Federais (e o que isso muda na nossa sala de aula)
Como alguém que vive a tecnologia há mais de duas décadas e conhece de perto a realidade das nossas escolas, eu sei que a chegada de novas ferramentas muitas vezes gera apreensão. O “medo da máquina” é um sentimento real entre muitos educadores. No entanto, para desmistificarmos o uso da tecnologia e aplicarmos o verdadeiro pensamento computacional exigido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), precisamos primeiro olhar para o nosso passado.
Entender como a nossa Educação Profissional e Tecnológica (EPT) foi construída ao longo da história nos ajuda a enxergar com clareza o nosso papel na sala de aula de hoje. Vamos juntos percorrer esse caminho para entendermos as nossas bases.
1909: o início assistencialista
O marco inicial da nossa educação profissional republicana ocorreu em 1909, quando o presidente Nilo Peçanha criou as Escolas de Aprendizes Artífices.
Naquele momento, a intenção do governo não era emancipar intelectualmente os alunos ou gerar autonomia. O objetivo era puramente assistencialista e higienista: o foco era ensinar ofícios manuais básicos aos “desvalidos da sorte”, com a justificativa de afastá-los da “ociosidade ignorante, escola do vício e do crime”. Era uma educação desenhada apenas para formar mão de obra dócil, e não para ajudar o aluno a compreender criticamente o mundo.
A dualidade histórica: escolas diferentes para classes diferentes
Esse começo ajudou a consolidar uma das marcas mais profundas e desiguais da nossa educação: a dualidade estrutural. O Brasil sustentou por muito tempo duas realidades escolares completamente separadas.
De um lado, o ensino propedêutico (acadêmico) era destinado à elite, focado no trabalho intelectual e no preparo para os cargos de liderança. De outro, o ensino técnico era reservado à classe trabalhadora, focado exclusivamente na execução manual e na rápida inserção no mercado, sem espaço para a criticidade.
O século XX: a industrialização e as tentativas de reforma
Durante as décadas seguintes, com o Brasil passando por um forte processo de industrialização (especialmente a partir dos anos 1930 e 1940, na Era Vargas), o ensino técnico cresceu para atender às necessidades das novas fábricas. Foi nessa época que nasceram as Escolas Industriais e o Sistema S (SENAI, em 1942, e SENAC, em 1946).
Tivemos alguns momentos de luz, como em 1961, quando os cursos técnicos finalmente ganharam equivalência ao ensino médio regular, permitindo que os alunos dessas escolas pudessem, pela primeira vez, sonhar em prestar exames para ingressar na universidade. Mas também vivemos períodos conturbados: em 1971, durante o regime militar, uma lei tentou tornar o ensino profissionalizante obrigatório para todos os alunos do ensino médio no Brasil. A ideia fracassou rapidamente por falta de infraestrutura e professores, e acabou aprofundando ainda mais a desigualdade entre as escolas públicas e as privadas. Foi apenas a partir de 1978 que começamos a ver o surgimento dos primeiros Centros Federais de Educação Tecnológica, os CEFETs, que trouxeram mais qualidade, estrutura e pesquisa para essa área.
1997 e 2004: avanços e retrocessos legais
Na década de 1990, sofremos um grave retrocesso com o Decreto nº 2.208/97, que proibiu a integração do ensino técnico com o ensino médio regular. Essa medida separou a teoria da prática, reduzindo a educação profissional a um treinamento rápido e utilitarista, esvaziando o papel humanístico da escola em prol das demandas exclusivas do mercado.
Felizmente, a educação é feita por pessoas que debatem e resistem. Em 2004, o Decreto nº 5.154/04 revogou essa fragmentação, trazendo de volta a possibilidade de integração entre o ensino médio e o ensino técnico. O foco voltou a ser a formação omnilateral — ou seja, o desenvolvimento completo e integral do aluno, unindo ciência, cultura, tecnologia e trabalho em uma mesma caminhada formativa.

2008: a revolução dos Institutos Federais
A grande transformação desse cenário, que nos trouxe à realidade atual, ocorreu com a sanção da Lei nº 11.892/2008, responsável por criar os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs).
Os IFs representam um modelo educacional focado na excelência e pautado na união indissociável entre ensino, pesquisa aplicada e extensão. Ao promover a verticalização do ensino — oferecendo desde o ensino médio técnico integrado até cursos de graduação e pós-graduação no mesmo espaço institucional —, os Institutos Federais provaram que a educação profissional deixou de ser uma via de segunda classe para se tornar um verdadeiro motor de inovação, cidadania e desenvolvimento regional.
O novo Ensino Médio e a Era Digital
Hoje, a nossa educação profissional vivencia novos e complexos capítulos. Com a reforma do Novo Ensino Médio (Lei nº 13.415/2017) e suas atualizações recentes (Lei nº 14.945/2024), a formação técnica e profissional passou a ser ofertada como um “itinerário formativo”. Muitos educadores alertam que esse modelo pode nos empurrar de volta para aquela antiga dualidade, separando novamente quem “pensa” de quem “executa”.
Ao mesmo tempo, fomos atropelados pela rápida transformação digital: inteligência artificial, automação e novas formas de relações de trabalho. O nosso grande desafio contemporâneo é não permitir que a modernização tecnológica sirva apenas para criar profissionais que operam máquinas de forma acrítica. A nossa escola precisa se apropriar dessas novas tecnologias sem perder a sua essência emancipatória.
O nosso papel na sala de aula hoje
Por que esse resgate histórico é tão essencial para nós, educadores, ao lidarmos com as exigências de letramento digital e tecnologia atuais?
Porque a BNCC Computação não é sobre formar novos “apertadores de botões”, repetindo aquele modelo utilitarista e limitado iniciado em 1909. O nosso papel na sala de aula hoje é gerar autonomia. Quando um aluno aprende lógica ou experimenta o pensamento computacional, ele não está apenas aprendendo a mexer em um programa; ele está compreendendo as estruturas lógicas que organizam a nossa sociedade para, assim, poder atuar nela de forma crítica e transformadora.
Ao planejar as aulas da sua disciplina (seja ela qual for), evite focar apenas em “como operar” uma ferramenta ou decorar um conceito. Provoque seus alunos a pensarem na estrutura das soluções. Faça-os questionar: Por que esse processo funciona dessa maneira? Como essa lógica por trás da ferramenta resolve um problema real da nossa comunidade?
Transformar o medo da tecnologia em domínio começa quando entendemos que a máquina deve servir ao desenvolvimento integral do ser humano. Vamos juntos construir essa autonomia na sala de aula!
Jonathan Lamim